Baú da Shakira #1: Entrevista para a revista Elle da Espanha

Com uma carreira tão longa quanto a de Shakira, não há de se espantar que hajam muitos momentos célebres que valem a pena ser recordados. Por isso, a partir deste mês, o Shakira Brasil traz o Baú da Shakira, que celebra em sua íntegra algum destes momentos.

Para começar, nossa equipe escolheu uma entrevista concedida à revista Elle da Espanha na edição de junho de 2005. Mesmo sem capa ou ensaio fotográfico (o nome de Shakira aparece discretamente na capa da revista, estampada pela modelo Reka Ebergenyi e as imagens que ilustram a matéria são de um ensaio feito em 2003), a conversa é esclarecedora e nos diz muito sobre o momento de Shakira, ainda vivendo com Antonio de La Rúa nas Bahamas e às vésperas de viver o maior sucesso de sua carreira. Confira:

O Novo Ritmo de Shakira

É a garota do momento. A rainha do pop latino estreia disco e atitude para com a vida. Voamos até as Bahamas para conversar frente a frente sobre sua nova relação com a música, o mundo dos pequenos prazeres e Deus.

Por Gema Veiga. Fotos: Gilles Bensimon

Faz dois anos que a deusa do pop não concede entrevistas. Depois de muitas negociações, ela nos recebe em seu retiro nas Bahamas, um arquipélago de ilhas que se esparramam com folga entre o sul da Flórida e Cuba. Do avião, as sombras das nuvens salpicam um deserto de água azul Listerine atravessado pela corrente morna do Golfo. Faz uns dias, Shakira saía do mar cheia de sal e areia quando seu namorado – o filho do ex-presidente da Argentina, Antonio de La Rúa – tirou uma foto. Agora esta foto é a capa do single que nos traz até aqui. A faixa se chama ‘La Tortura’, abre seu novo disco Fijación Oral e ela canta em dueto com ninguém menos que Alejandro Sanz. É a primeira vez na história em que um álbum cem por cento em espanhol se transforma em prioridade mundial, desde a Alemanha até a Ásia passando pela América latina e Nova Iorque. O que essa menina de Barranquilha tem para que todos dancem ao ritmo de seus quadris? Alejandro Sanz tem a resposta: “Shakira é uma menina muito pequena e uma mulher muito gigante. Vive loucamente apaixonada por seus sonhos e tremendamente acordada se se lembra.. que a loucura não é só uma piada. Que a obsessão é a prova de amor aos personagens de suas canções, que na verdade somos todos  nós… Trabalhar com Shakira foi incrível, sim, mas conhecê-la.. conhecê-la foi melhor”

O que acha do que Alejandro Sanz escreveu sobre você?

Uau! Estou muito emocionada… Me deixa ler?

Claro (Shakira está em uma cama balinesa na postura da flor de lótus. Usa jeans rasgados, os pés descalços e tem uma almofada no colo. Enquanto lê, os olhos estão acesos e passa o dedo pela folha com a mesma emoção de uma princesinha a quem entregam palavras lindas para esquecer-se da batalha que acontece).

Como posso devolver a um poeta palavras que estejam à altura disso? Falar de Alejandro é como dar flores às flores. Ele é o gigante… Mastiga arte a cada minuto. Em Miami é vizinho do meu pai e sempre que vou à sua casa ele põe algo de Paco de Lúcia, o admira muitíssimo. Alejandro me fez conhecer a fraternidade, é um de meus melhores amigos. Note que faz pouco tempo estraguei meu equipamento de música. Toquei a campainha e pedi o dele emprestado!

E de quebra soltou: “não gostaria de cantar em meu disco?”. Com vizinhos assim, qualquer um fica sem sal…

Pois eu lhe disse “Alejandro, tenho uma música e gostaria que escutasse. Se gostar, bem, e se não, não tem problema”. Ele adorou. Tem uma voz muito pessoal, é único. Só ele podia cantar comigo em ‘La Tortura’.

Além deste dueto com Alejandro Sanz, o que há de novo em sua música?

Este é meu disco mais latino. A princípio, proibi os violões. Só queria sintetizadores para fazer uma homenagem aos anos 80 – sou muito fã de Depeche Mode e The Cure – mas quando já tinha 60%, implorei para que me trouxessem um violão. Assim chego às minhas conclusões, a partir de equívocos e dúvidas.

Já avisa um verso de ‘La Tortura’ “Só de erros se aprende na vida/não pode pedir o que é eterno a um simples mortal/nem jogar pérolas aos porcos”. Em quem pensava quando escreveu isso?

Esta canção é um exorcismo para espantar os fantasmas do passado. O que queria era retratar a realidade de nossos países machistas, onde o homem te trai, pede perdão e sai impune.

Você sempre diz o que pensa?

Sempre.

Parece coerente, mas não te traz…
Problemas? Sim, problema é meu segundo nome.

Ou seja: você paga um preço por defender suas ideias, por impor guitarras na metade de um disco, por se fazer respeitar aos 27…

Não vou te dizer que seja fácil levar uma carreira artística em um mundo de homens, desde os executivos das gravadoras até os músicos com quem tenho que me reunir todos os dias. Claro, agora tenho sucesso  esse é um grande colchão sobre o qual posso me sentar, mas e antes? Passei por alguns anos muito difíceis. Já me vi em meio a um grupo de homens incrédulos e absolutamente afetados pelo fato de terem uma mulher em seu espaço de trabalho. Não me deixavam dizer nada. Sim, eu senti o machismo na própria carne, no meio musical, este ambiente que parece tão liberal. Não pretendo fazer apologia, porque odeio os posicionamentos feministas, mas o que digo é absolutamente verídico.

Se você não deixa de falar nada, podemos dizer que ouvindo sua música escutamos também aquilo que você sente?

Com certeza. Com a música construo a ponte mais direta que conheço para descarregar o peso do mundo. Compor e cantar são minhas catarses íntimas. A música já existia antes dos psiquiatras e para mim é uma terapia. Sem ela, não sei como poderia sobreviver neste corpo.

Então seu namorado também tem efeitos balsâmicos na sua vida, a julgar pelas canções de amor que há neste disco…

Antonio é meu grande muso inspirador. Quando tenho coisas lindas para dizer para ele, escrevo uma música.

Gabriel Garcia Marquez disse sobre você: “Ninguém dança como ela, com essa sensualidade inocente que parece ser sua própria invenção”. Onde aprendeu a mexer os quadris?

Faço dança do ventre desde menina. É um super  exercício que certamente ativa a sensualidade, mas tenho mais energia no palco do que fora dele… por isso não vou à academia (risos).

E como se mantém assim magra?

Uff… tenho tendência a engordar. Tento evitar as farinhas, mas morro por chocolate, é meu ponto fraco. Às vezes prefiro não comer arroz ao meio dia para poder lanchar um brownie.

Dizem também que gosta de fechar em seu quarto para falar com Deus e que antes de cada show reza um salmo com seus pais. É verdade?

O salmo 91, um que fala sobre evitar o leão, a serpente e o caçador. O pouco que nos resta na América latina é Deus. O que seria do México sem a virgem de Guadalupe? É um país que se desmoronaria.

E de Shakira, o que seria sem fé?

A vida sem fé é muito árida, mas agora estou tratando de modificar minha relação com Deus.

Por que?

Por que tínhamos um trato mercantilista, sou boa negociante e conhesegui muitas coisas 9risos). Isso tem que mudar.

Você é católica?

Sim, acredito na virgem mas é difícil ser católica e defender todas as determinações da igreja a qualquer custo. Historicamente, muitos erros foram cometidos. Acho que as religiões do futuro não vão ser de massa, mas sim individuais. Como pode ver, sou muito mística, isso sim, o exotérico não me chama muita atenção.

E o mundano? Que coisas pequenas encantam alguém que tem tudo?

Há cerca de um ano meus prazeres já não são os mesmos. Acho que me transformei em adulta!

Pode desenvolver mais a ideia?

O 26 é meu número chave. Antes fazia coisas como tirar os sapatos no meio da sala. Depois dos 26 me transformei numa fanática pela ordem. Agora me dá muito prazer em ver minha casa arrumada, ter o closet com as roupas enfileiradas, cuidar do meu jardim e beber vinho, algo que antes dos 26 não gostava.

E como se vê no futuro?

Desfrutando de um ano sabático, é uma dívida que tenho comigo mesmo. Gostaria muito de viajar, ver o mundo como uma pessoa comum, não como uma celebridade. Tenho tantos projetos! Não sei se vou continuar cantando a vida toda, sabe? Todavia, nunca vi um canário que perdesse a vontade de cantar. Por agora, quero fazer música, mas não descarto que algum dia possa considerar outras artes.

Me dá uma pista…

Gosto muito de esculpir. Quando estive na Espanha…

Escondida por uns meses no vilarejo de Alcalá de Henares…

Sim (risos). No seu país me atrevi a fazer minha primeira escultura séria. Modelei um grande busto em cobre e alumínio. Quero seguir explorando no mundo plástico.

E o cinema? Não te tenta? Aos 17 anos você protagonizou uma telenovela.

Este foi meu único contato com este mundo. Recebo ofertas, mas não me impressionam. Gostaria de fazer cinema independente ou um personagem histórico. Adoro história! Isso sim, aceitaria se tivesse um bom diretor, alguém que se atrevesse a trabalha com atrizes tão inexperientes como eu e que pudesse fazê-las ficar bem.

Cite nomes, que sabe não leia esta entrevista e te chame…

Quentin Tarantino…. Imagina só! (risos)

Texto/tradução: Josimar Rosa para Shakira Brasil