#Bastidores: Como Shakira ganhou o direito de cantar o maior hino de Copas do Mundo da história

Documentos indicam que gravadora não queria dar a Shakira  música do Mundial da África do Sul

Era uma segunda-feira, dia 26 de abril de 2010. Naquela manhã, a oficina de comunicação da Sony Music Entertainment, em Nova York, havia acabado de tornar público um comunicado à imprensa que traria um anúncio com fortes repercussões no mundo da música e do futebol. “Fifa and Sony Music Entertainment select “Waka Waka (This Time for Africa)” by Shakira featuring Freshlyground as Fifa World Cup 2010 Official Song” era o título do release de duas laudas recebido na caixa de entrada de e-mail de jornalistas do mundo inteiro. A cantora colombiana seria a responsável pelo hino da competição esportiva mais popular do planeta, que pela primeira vez na história seria realizada no continente africano. O que se seguiu depois daquela manhã o mundo inteiro sabe. “Waka Waka (This Time for Africa) se tornou o maior hino de Copas do Mundo de todos os tempos. Segundo a Sony Music, a canção vendeu mais de 10 milhões de cópias digitais. Só nos EUA foram cerca de 1,8 milhão de cópias, de acordo com reporte da Nielsen Music, em 2014. A música alcançou o topo das paradas de sucesso de diversos países, rendeu à colombina mais um massivo hit global e foi um verdadeiro marco na sua carreira. No entanto, o que o mundo não sabe é a história, até então nunca contada, dos bastidores que revela os motivos que levaram FIFA e Sony Music a escolherem a canção da artista colombiana para o Mundial.

Print do release da Sony Music no site da companhia e sobreposição de print de e-mail recebido por um jornalista em 2010.

O Shakira Brasil (SBR) teve acesso a 49 páginas do processo BC505814 de 2013 da Corte da Califórnia, que envolve à colombiana e joga luz sobre alguns aspectos dos bastidores da carreira da artista. Na semana passada, nós publicamos nossa primeira reportagem especial baseada na leitura deste e de outros documentos. Hoje (08), na segunda edição desta série de reportagens, batizada de #Bastidores, o SBR revela com exclusividade os caminhos que renderam à Shakira um dos momentos mais épicos de sua carreira no final da década passada.

Um single abaixo do esperado e uma turnê ameaçada

Para entendermos como Shakira ganhou a chance de ser a protagonista musical da Copa do Mundo de 2010, é preciso voltarmos a 2009, ano de lançamento do seu terceiro álbum em inglês, “She Wolf”. Para promocioná-lo, a cantora havia publicado o single  que levava o mesmo nome do disco, em 10 de julho. No entanto, o desempenho comercial, ainda que satisfatório, foi visto com preocupação pelo corpo diretivo da Live Nation, que havia assinado um ano antes um contrato pelos direitos globais da artista pelos próximos 10 anos, com receitas estimadas em U$ 800 milhões. Segundo o documento analisado pela redação do SBR, Michael Rapino, CEO da Live Nation, se reuniu a portas fechadas com a equipe da artista para expressar seus temores sobre a viabilidade financeira da próxima turnê de Shakira e como a ausência de um grande hit global impactaria nos prospectos da mesma. O plano da gravadora, a Epic Records, de relançar o disco com um novo single, “Give Up To Me’, também havia falhado e Rapino estava pressionando para que a colombiana saísse logo em turnê para aproveitar “o pouco valor do álbum, antes que ele caísse completamente no obscurantismo”. Na outra ponta da mesa, a equipe da artista temia que sair em turnê naquele momento colocaria em risco a carreira da artista a longo prazo. “Uma turnê fracassada, em um recinto cheio de lugares vazios pode ser uma sentença de morte”, disse um dos representantes da cantora no documento. Assim, a equipe da artista convenceu a Live Nation a adiar a turnê por alguns meses, enquanto preparavam uma ação que gerasse publicidade o suficiente para salvar a primeira série de shows de Shakira debaixo do contrato 360º.

Lobby e uma canção poderosa

A ação que o time da colombiana tinha em mente era clara: fazer com que Shakira cantasse o hino da Copa do Mundo de 2010. O evento geraria bastante publicidade para a cantora e poderia salvar a viabilidade financeira da turnê. Mas isso não era uma tarefa fácil por uma série de fatores. Era preciso convencer a Sony Music Global, detentora dos direitos musicais do evento e a FIFA, organizadora do Mundial. Segundo dados do processo, a FIFA não queria Shakira. A estrela latina já havia cantado na última Copa, em 2006, na Alemanha, uma versão do seu mega hit “Hips Don’t Lie”, feita exclusivamente para o evento, e a organização de 2010 queria assumir outra direção. Isso foi o que a equipe de Shakira ouviu em uma reunião com o, então, Vice-Presidente da FIFA, Jack Warner.

Em outra frente, a equipe fazia lobby com o Presidente da Sony Music Entertainment da época, o alemão Rolf Schmidt-Holtz. Mas em um primeiro momento a resposta também foi “não”. A gravadora não estava interessada em dar o protagonismo de um evento tao importante a uma cantora que estava deixando o selo. Com o contrato assinado em 2008 com a Live Nation, Shakira não lançaria mais seus álbuns com a Sony. A colombiana deixaria a gravadora assim que lançasse mais um disco de inéditas. E naquela época ninguém fazia ideia ainda que a Live Nation devolveria o contrato de gravação da colombiana à casa discográfica. Assim, nem FIFA e nem Sony Music estavam convencidos de que a cantora latina era a melhor opção para a música tema do Mundial.

Mas Shakira e sua equipe não se deram por vencidos. Um membro do time da cantora viajou até o Caribe colombiano para pesquisar elementos musicais que conectassem a cultura da Colômbia com a África. Algumas dessas gravações foram enviadas aos executivos da Sony Global para ir gerando interesse. Em fevereiro de 2010, Shakira se dirigiu até uma fazenda de sua propriedade no Uruguai para trabalhar na canção que poderia vir a ser o tema da Copa do Mundo. Ali, ela se deparou com o refrão do canto camaronês, muito popular no seu país natal trazido pelo membro do seu time. Com a ajuda do produtor Jhon Hill, que havia trabalhado no disco “She Wolf”, ela compôs, produziu e gravou ali mesmo a  música “Waka Waka (This Time for Africa)”. Jhon Hill havia trabalhado recentemente com o grupo sul-africano “Freshlyground” em Nova York e rapidamente os conectou a Shakira para trazer um elemento local do país sede à música. O resultado final estava pronto.

“Eu a escrevi desde o granjeiro que temos no Uruguai, onde há um pequeno estúdio de gravação. Ali e a caminho de casa escrevi a canção. Como se alguém me a tivesse sussurrado ao ouvido. Jamais havia me ocorrido algo assim”, disse Shakira, em entrevista, quando a música já havia sido lançada.

A gravação foi então enviada à Sony Music. A música era tão poderosa que a gravadora não pôde dizer não às investidas da equipe da colombiana. Com um trabalho tão contundente, a casa discográfica sabia que tinha em mãos um hino tão forte, que neste momento, foi fácil convencer a FIFA que a música de Shakira era a melhor escolha para o evento. Assim, dois meses depois de Shakira entrar em seu pequeno estúdio particular no Uruguai, ela era anunciada como a voz do Mundial da África do Sul, naquela manhã de 26 de abril de 2010.

O Maior Hino de Copas da História

Com uma canção poderosa o sucesso era mais do que predestinado. Mas Shakira e sua equipe fizeram questão de garantir que a faixa tivesse a atenção devida em diversas plataformas. Um grande publicitário de Nova York foi contratado para criar um vídeo e uma campanha de divulgação do mesmo, dirigido por Marcus Raboy. Ceci Kurzman e outros integrantes da equipe de marketing da colombiana se reuniram com Eric Schmidt, ex-CEO do Google, para que o vídeo recebesse suporte do Youtube. Hoje, o clipe da canção conta com mais de 2 bilhões de visualizações, sendo o vídeo mais visto de uma música tema de Copa do Mundo da história. Segundo a Sony, somente nas quatro semanas que duraram o Mundial, a faixa vendeu mais de 1 milhão de cópias digitais e foi #1 em 15 países simultaneamente. Impulsionado por Waka Waka, o álbum oficial da competição, “Listen Up!”, arrecadou cerca de U$2,5 milhões, e a renda foi toda revertida para projetos sociais africanos.

Uma grande turnê mundial

Com um grande hit global, Shakira poderia agora sair em turnê pelo mundo para a alegria dos executivos da Live Nation. Uma semana depois daquela manhã de 26 de abril, a cantora em parceria com a gigante do entretenimento ao vivo anunciou, em 3 de maio, a sua nova turnê mundial, que começaria em setembro daquele ano, na América do Norte.

Live Nation anuncia turnê de Shakira em 2010.

A série de shows foi um grande sucesso. Com apenas 24 horas do início das vendas, o concerto de Los Angeles esgotou todas as entradas e sete datas extras foram anunciadas nos EUA, devido a alta procura. Na América Latina, Shakira bateu recordes de arrecadação, com seus shows em São Paulo e Caracas arrecadando, respectivamente, mais de 4 e 3 milhões de dólares com a venda de ingressos.

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