É bastante verdade que a “Session 53”, parceria da colombiana Shakira com o argentino Bizarrap, se tornou, à sua própria maneira, um hino feminista do mundo globalizado, chegando ao topo do ranking de músicas mais reproduzidas do Spotify.
O bordão “as mulheres não choram mais, as mulheres faturam” fez tanto sucesso que meses depois daria nome a um disco e também à turnê latina mais lucrativa da história. A frase leva quase ao sentido literal a ideia de transformar lágrimas em diamantes — ou transformar sofrimento em dinheiro. Afinal, como já disseram antes Madonna, ou Ringo Starr, vivemos mesmo em um mundo material.
Mas esta não é, de forma alguma, a primeira vez que Shakira lança um olhar mais atento sobre o feminino — ou mesmo sobre o feminismo.

Shakira, a quem certa vez o compatriota e vencedor do Nobel de Literatura Gabriel García Márquez definiu como “dona de uma sensualidade inocente que parece ter sido inventada por ela mesma”, criou ainda nos anos 2000 um silencioso, discreto e brilhante manifesto feminista com o clipe de “Las de la Intuición”. E é uma pena que pouco se fale sobre ele nos dias de hoje.
Não acredita? Vamos lá.
Silenciosamente, o clipe estabelece suas teses por meio das imagens que cria — e uma delas é a famigerada peruca lilás, que muitos fãs usam até hoje para assistir à Las Mujeres Ya No Lloran World Tour.
Uma das primeiras parcerias entre Shakira e o diretor Jaume de Laiguana, o clipe se tornou um dos visuais mais marcantes da carreira da cantora.
O que nem todos sabem, porém, é que o lilás é uma cor historicamente associada ao movimento feminista. Desde os primórdios do movimento moderno, nos anos 1960, a cor passou a representar a busca por igualdade. Sua composição resulta da mistura, em partes iguais, de rosa e azul — tradicionalmente associados ao feminino e ao masculino em nossa sociedade. Assim, para muitas das primeiras feministas — e antes delas para as sufragistas — o lilás simbolizava justamente a busca por equilíbrio entre os gêneros.

Mas este é apenas o começo. Ao longo do vídeo, Shakira explora o papel que o patriarcado espera que a mulher desempenhe na sociedade.
O figurino escolhido é um bom exemplo disso. Durante boa parte do clipe, a cantora assume a imagem da garota colegial, algo que remete à ideia de que a beleza feminina mais valorizada pelo senso comum é sempre a da juventude. A mulher mais velha, experiente e dona de si costuma ter muito menos espaço no mundo em que vivemos. Em outros momentos, Shakira aparece usando espartilho, corset e saltos extremamente altos, remetendo a outro arquétipo frequentemente associado à figura feminina: o da mulher fortemente sexualizada.
Se o figurino é pensado, o mesmo vale para suas ações no vídeo. Shakira surge repetidas vezes diante de um espelho, se maquiando e se perfumando — uma referência à ideia de que a vaidade seria a principal preocupação feminina, como se esse fosse o papel que a sociedade espera delas.

Todo o resto que ela faz ao longo da produção parece propositalmente inútil: ela empunha uma guitarra — mas não a toca — e aparece toda serelepe diante de um carro que também não dirige. Em determinado momento, canta diante de um ponto de luz, e não de um microfone. A mensagem é cristalina: espera-se que as mulheres permaneçam em silêncio, sendo apenas bonitas.
Para reforçar essa ideia, Shakira e as dançarinas que a acompanham — todas muito parecidas entre si, afinal “boas meninas” não deveriam se destacar demais — passam boa parte do vídeo acenando afirmativamente com a cabeça.
Para nós, parece bastante genial, não?
No final, de maneira quase metalinguística, Shakira e Jaume parecem fazer exatamente aquilo que o próprio clipe critica. A crítica social está ali — pesada, mas discreta — escondida atrás de uma melodia doce e de um refrão perfeito para as rádios.
No fim das contas, “Las de la Intuición” é o tipo de clipe que mostra o quanto Shakira sempre foi visionária também no audiovisual. Entre ironia, exagero e uma estética marcante, ele se sustenta como um dos trabalhos mais criativos de toda a sua carreira — e um que merecia ser lembrado e celebrado com muito mais frequência quando se fala nos videoclipes dela.

