Shakira transformou a proximidade de sua residência de 12 shows em Madrid em uma reflexão sobre identidade, imigração, cultura e a necessidade de conexão em um mundo cada vez mais mediado por telas. Em uma carta publicada nesta segunda-feira (31) pelo El País, a cantora explicou por que escolheu a capital espanhola para este capítulo da Las Mujeres Ya No Lloran World Tour, falou sobre o que chama de “latinidade”, lembrou do Brasil dentro dessa reflexão e revelou que cada noite terminará em um grande carnaval inspirado por diferentes partes do mundo latino.
O texto chega a 18 dias do primeiro show da temporada, marcado para 18 de setembro. Shakira diz estar impressionada com os números: são mais de 600 mil ingressos vendidos para as 12 apresentações e, segundo ela, uma residência de proporções inéditas na Europa. A artista também cita um estádio para 55 mil pessoas sendo erguido em Villaverde especificamente para música. Mas faz questão de dizer que sua carta não é sobre estatísticas. É sobre o motivo de tudo isso existir.

Uma celebração que começou a partir de uma inquietação
Shakira conta que a ideia ganhou outro peso ao acompanhar pessoas latinas sendo perseguidas e famílias obrigadas a viver com medo. Diante desse cenário, ela reconhece a legitimidade da indignação, mas diz ter decidido responder de outra maneira: com uma celebração capaz de reafirmar presença, alegria e dignidade.
Madrid aparece, então, não apenas como uma escolha logística para concentrar 12 grandes apresentações, mas como parte da própria mensagem. Na visão de Shakira, existe na cidade uma convivência que merece ser observada: “a imigração latina não é tolerada, é celebrada”. A cantora associa essa integração aos vínculos históricos e culturais entre Espanha e América Latina, das palavras e gestos às tradições familiares e à vida cotidiana.
É uma justificativa que amplia o significado de um projeto que já vinha sendo apresentado como muito maior que um palco. O Shakira Brasil detalhou em julho os primeiros planos do Estadio Shakira e da cidade cultural que acompanhará os shows. Agora, pela primeira vez em um texto tão pessoal, a própria Shakira organiza as ideias por trás dessa estrutura.
O espaço está sendo montado em Villaverde, na região de Madrid, para receber a temporada da cantora. O registro abaixo mostra a área onde o projeto está sendo preparado:
A montagem avançou durante agosto e já vinha revelando a dimensão física da residência. Em outra matéria, o SBR mostrou como o Estadio Shakira começou a tomar forma a menos de um mês da estreia. A carta publicada agora acrescenta o que as imagens da construção não poderiam explicar sozinhas: o conceito que Shakira quer colocar dentro daquele espaço.
Macondo como resposta à solidão digital
Ao lado do estádio, será instalado o Macondo Park, uma área cultural que Shakira descreve como uma cidade de aproximadamente 30 hectares. Segundo a cantora, mais de cem artistas participarão do projeto, que reunirá literatura, dança, música, moda, gastronomia, cinema e artes visuais. O visitante poderá percorrer diferentes expressões do mundo latino antes e depois do espetáculo.
O nome não é casual. Gabriel García Márquez atravessa toda a carta como uma referência afetiva e intelectual. Shakira parte de uma das imagens mais conhecidas de Cem Anos de Solidão para questionar se uma segunda oportunidade pode existir justamente por meio do vínculo, do abraço e da recusa em deixar o outro sozinho. Para ela, Macondo funciona menos como um lugar imaginário e mais como um espelho da mistura cultural latino-americana.

É daí que surge um dos pontos mais pessoais do texto. Shakira descreve a era digital como extraordinária, mas também capaz de produzir isolamento. Sem rejeitar a tecnologia ou o futuro, ela observa uma contradição familiar para muita gente: nunca foi tão fácil acompanhar a vida dos outros por uma tela e, ao mesmo tempo, sentir distância.
A cantora contrapõe essa experiência a hábitos que associa fortemente à cultura latina: o abraço, a dança, a mesa compartilhada e a convivência. Na leitura de Shakira, a música ocupa um lugar especial porque produz justamente o movimento contrário ao isolamento. Uma tela pode separar duas pessoas; uma canção, em um estádio, pode fazer dezenas de milhares cantarem e dançarem juntas.
Essa é a chave que conecta a reflexão quase filosófica da carta a um projeto de entretenimento de grandes proporções. O Macondo Park, o estádio e os 12 concertos não são apresentados por ela apenas como produtos de uma turnê bem-sucedida, mas como espaços para criar encontros físicos em torno de uma cultura que historicamente se expressa de maneira coletiva.
“Eu sou essa mistura”
Quando passa a falar sobre identidade, Shakira não tenta definir o que é latino apenas pela geografia. Ela usa a própria história para mostrar como diferentes origens podem conviver dentro de uma mesma pessoa.
A cantora lembra que cresceu em Barranquilla, no Caribe colombiano, cercada pela presença do tambor africano. Cita San Basilio de Palenque e sua herança africana, fala das raízes espanholas, da influência do Oriente Médio herdada do pai e da resiliência dos povos originários das Américas. Também inclui seus dois filhos espanhóis nessa história para argumentar que a mistura não pertence apenas a um passado de séculos atrás: ela continua acontecendo no presente.

Essa leitura ajuda a entender a carreira da própria Shakira. Desde muito antes do crossover em inglês, sua música já aproximava rock, pop, ritmos latino-americanos e referências do Oriente Médio. A artista que levou elementos árabes a “Ojos Así”, instrumentos andinos a “Whenever, Wherever” e diferentes ritmos colombianos aos grandes palcos internacionais agora transforma essa mistura em parte explícita do conceito da residência.
Por que Shakira prefere falar em “latinidade”
É nesse ponto da carta que aparece o Brasil. Shakira propõe que, ao discutir a identidade compartilhada por esses povos, não se fale apenas em hispanidade, mas também em “latinidade”, uma ideia que considera mais abrangente.
A diferença não é apenas semântica. A hispanidade está ligada à língua e à herança cultural espanhola; para Shakira, isso não dá conta de toda a diversidade que pretende celebrar. Ela lembra que o português, o italiano e o francês também são línguas latinas e aponta o Brasil como o exemplo mais evidente dentro da própria América Latina: o maior país da região fala português, e não espanhol.
O Brasil, portanto, não aparece na carta como uma menção isolada ou uma tentativa de agradar a um público específico. Ele faz parte do argumento que Shakira constrói. Se a intenção é falar sobre uma identidade capaz de atravessar fronteiras, idiomas e diferentes origens, a cantora considera “latinidade” um abraço maior do que “hispanidade”.
Ela resume essa visão como uma fusão construída a partir de África, América e sul da Europa. Em vez de tentar reduzir cinco séculos de história a uma única origem, prefere olhar para o resultado dessa mistura e transformá-lo em motivo de celebração.

O Brasil estará também no encerramento dos 12 shows
A presença brasileira não ficará apenas no campo das ideias. Shakira revelou que cada uma das 12 apresentações em Madrid terminará com um carnaval.
O encerramento vai reunir referências de Cádiz e das Ilhas Canárias, de sua Barranquilla, do Brasil, do Caribe e da América Central. A escolha do carnaval como imagem final é coerente com toda a argumentação da carta: para Shakira, poucas manifestações representam de maneira tão clara o encontro entre África, América e Europa, com música, dança, cor e participação coletiva.
Ela descreve esse final como uma espécie de ato simbólico para colocar em prática o que o projeto pretende defender. Depois de uma carta inteira falando sobre medo, imigração, solidão, mistura e vínculo, a resposta será dada com milhares de pessoas juntas em um estádio.
Há também algo especialmente familiar nessa escolha para quem acompanha Shakira desde Barranquilla. O carnaval sempre esteve próximo de sua identidade e de sua maneira de falar sobre a cidade onde nasceu. Ao juntar Barranquilla, Brasil, Caribe, Centroamérica, Cádiz e Canarias na mesma celebração, a residência transforma esse repertório de referências em linguagem de palco.
Mais que 12 datas no calendário
Quando os primeiros anúncios da residência surgiram, a dimensão do projeto naturalmente chamou atenção pelos números. Doze apresentações concentradas na mesma cidade, centenas de milhares de ingressos, um estádio temporário e uma grande área cultural já seriam suficientes para fazer de Madrid um capítulo diferente dentro da Las Mujeres Ya No Lloran World Tour.
A carta publicada no El País muda o foco. Shakira parece interessada em explicar o que pretende fazer com essa escala. Os 600 mil ingressos deixam de ser apenas uma estatística quando são entendidos como 600 mil oportunidades de colocar pessoas diferentes no mesmo espaço. O Macondo Park deixa de ser apenas uma extensão do evento quando passa a ser descrito como uma cidade construída para estimular encontro e descoberta cultural.
Mesmo o estádio, que a cantora afirma ter sido concebido para música e não para futebol, ganha outra função dentro desse discurso: ser o ponto de convergência de uma residência que quer transformar a ideia de “latino” em experiência, e não apenas em rótulo.
O primeiro dos 12 shows acontece em 18 de setembro. Quando as luzes se acenderem em Villaverde, haverá inevitavelmente atenção para o palco, o repertório, os figurinos e as possíveis mudanças que Shakira preparou para esta nova etapa da turnê. Mas, depois da carta, existe também outra expectativa: entender como todas essas ideias sairão do papel e aparecerão diante do público.
Porque, para Shakira, a mensagem da residência pode ser resumida no próprio título escolhido para sua carta: “Em Madrid somos todos latinos”. E, ao final de cada noite, essa ideia deverá ganhar sua forma mais barulhenta, coletiva e reconhecível: um carnaval.
