O sucesso robusto de El Dorado no novo cenário do mercado global de música

Com mais de 4 bilhões de streamings combinados, El Dorado confirma o domínio global de Shakira, na era em que os serviços de música por demanda representam o grande bolo do faturamento da indústria fonográfica 

Ela veio despretensiosa depois de uma ausência que durou cerca de três anos. Sua relação com a música deixou de ser perfeccionista e passou a ser mais híbrida, mais pragmática e menos dolorosa. O tempo em estúdio, conciliado com as responsabilidades da maternidade, transformaram o processo de produção de seu novo álbum quase em um hobbie e o resultado veio à luz no último dia 26 de maio. Com menos de dois meses de vida, El Dorado já é o álbum latino mais vendido do ano nos EUA, seus singles esbanjam certificações mundo a fora e o sucesso robusto nas plataformas digitais impressiona, mesmo se tratando de um disco da artista mais popular da rede social mais acessada do planeta (Shakira é a única figura pública do mundo da música a ter mais de 100 milhões de curtidas em sua página oficial do Facebook).

El Dorado, até o fechamento dessa matéria, acumula mais de 4 bilhões de streamings combinados, considerando a execução de suas faixas em plataformas como Spotify, Youtube, Deezer e Apple Music. Estas duas últimas não disponibilizam em modo público o número de players dos discos de seu acervo, mas só no Youtube e no Spotify, o álbum de Shakira conta com mais de 3,9 bilhões de execuções.  Sucesso incontestável, os números de El Dorado têm deixado para trás álbuns em inglês de artistas recordistas de vendas. E o êxito dessa empreitada ganha um status ainda mais relevante quando analisamos a importância do streaming no panorama atual do mercado dos produtores de música.

Streaming – a galinha dos ovos de ouro da indústria musical
Anos sucessivos de crise e retração nas receitas colocaram o mundo da música em alerta. Foram 20 anos seguidos de quedas vertiginosas até, que em 2015, por fim, o cenário mudou e o segmento passou a obter lucros. A indústria se adaptou à era digital e viu os lucros saltarem.

“Após duas décadas de declínio quase ininterrupto, 2015 registrou marcos-chave: crescimento mensurável das receitas a nível mundial, explosão do consumo de música por toda parte, e receitas digitais superando os rendimentos de formatos físicos pela primeira vez.”, disse Frances Moore, executivo-chefe da Federação Internacional da Indústria Musical (IFPI), em comunicado à imprensa.

Se em 2015, as receitas digitais superaram os rendimentos  do formato físico, em 2016 foi a vez do streaming ultrapassar as receitas dos downloads pagos. O mais recente relatório da IFPI, publicado no primeiro semestre desse ano, revela que o streaming remunerado é o modelo que mais gerou recursos para o setor fonográfico, rendendo a impressionante quantia de 4,56 bilhões de dólares, um crescimento de 60% em relação ao ano anterior. No total, a cadeia produtiva de música gravada no mundo obteve recursos na casa dos USD 15,68 bilhões. A América Latina foi a região que apresentou o maior índice de crescimento nas receitas, com um incremento de 12% em relação ao ano anterior.

 

O serviço de música por demanda, o streaming, que disponibiliza faixas e álbuns para audição em plataformas online, provocou uma verdadeira revolução na forma com que as pessoas consomem música e foi responsável por salvar da crise todo uma indústria de produção de discos. No Brasil, os números também impressionam. Apesar de uma leve retração no faturamento geral (queda de 2,8%), provocada pela crise econômica no pais, o segmento de streaming interativo cresceu 52, 4% em 2016, de acordo com os dados da Pro-Musica Brasil Produtores Fonográficos Associados, a antiga ABPD.

“O streaming interativo, seja bancado por subscrições/assinaturas ou receitas de publicidade, está rapidamente convertendo-se no principal modelo de distribuição de música do setor fonográfico. Acontece no Brasil exatamente o que vem acontecendo em quase todos os mercados do mundo: crescimento significativo de assinantes de plataformas de streaming de áudio, combinado com elevação, embora num ritmo mais lento, das receitas com publicidade originadas em plataformas de streaming de áudio e vídeo (…). O mercado brasileiro de música já é predominantemente digital, com as receitas deste segmento correspondendo a 49% do total do mercado (…). Se considerarmos apenas o mercado físico (CDs, DVDs, Vinil, etc.) comparado ao digital (streaming, downloads, etc.), a proporção é de 22,8% para o físico e 77,2% para o digital.”, disse em comunicado o Presidente da Pro-Musica Brasil, Paulo Rosa.

O grande sucesso de El Dorado, um álbum majoritariamente em espanhol, nas plataformas digitais é um forte indicativo do sucesso da empreitada da artista colombiana em dominar o mundo. Em sintonia com o novo cenário da produção de música global, Shakira mostra que não estacionou no tempo e assume para si o feito de ainda se manter relevante em uma indústria dominada por artistas jovens que já nasceram na era digital.