As Rosalias e Natalias de hoje e o pioneirismo de Shakira no Grammy Latino dominado por homens

Mais de uma década depois de Shakira ter sido a primeira mulher a ganhar a principal categoria do Grammy Latino, apenas outras duas mulheres levaram o gramofone de ‘Album Of The Year’ em 20 anos de premiação

Levi Tavares – Na última quinta-feira (19), a cantora mexicana Natalia Laforcaude conquistou uma vitória que deve ter sido simbólica para todas as artistas femininas da música latina. Ela levou para casa o Grammy Latino de “Álbum do Ano”, a categoria mais importante da premiação. Chama a atenção, que em 20 anos de história da edição do Grammy exclusiva para essa comunidade, ela é apenas a terceira mulher a vencer a categoria principal. Antes dela, apenas Rosalia e Shakira haviam tido, segundo a Academia, o melhor álbum lançado no ano. Uma desproporção gritante: 18 prêmios concedidos a homens x 3 prêmios concedidos a mulheres. Olhando para essa desproporcionalidade é inevitável levantar a questão da desigualdade de gênero no evento mais importante da música latina. O SBR se debruçou sobre os números do evento e na Reportagem Especial da Semana joga luz sobre o abismo entre homens e mulheres na mais prestigiada noite anual de música da comunidade latina.

A cantora Natalia Laforcade

Nossa reportagem analisou todos os vencedores da 21° edição do Grammy Latino e os vencedores das quatro categorias principais de todos as edições anteriores do prêmio. Não restam dúvidas de que os homens dominam os Grammys Latinos. Apesar de ser um avanço o fato de Natália e Rosália terem levado o prêmio mais importante da cerimônia nos últimos dois anos, a edição 2020 da celebração continua a demonstrar tendências de privilégios aos homens. Das 50 categorias premiadas este ano, apenas 16 foram vencidas por mulheres, sendo que em cinco delas o prêmio foi compartilhado com um homem. É uma proporção de 68% dos gramofones indo para os homens e apenas 32% para as mulheres. Nas categorias de maior proeminência, que celebram os subgêneros mais populares da música latina como o urbano, o pop, o rock e o tradicional, dá para contar nos dedos de uma mão o número de artistas femininas contempladas. São elas: Natalia Laforcaude, Rosalia, Mon Lafarte, Ile e Kany García.

Vale notar que nas oito categorias destinadas exclusivamente às produções em língua portuguesa ocorre um equilíbrio entre os gêneros. Quatro prêmios foram para mulheres e quatro para homens, contrariando a tendência geral da Academia.

Nos anos anteriores, o retrospecto é de uma vitória massacrante dos artistas masculinos. Considerando apenas as quatro categorias principais (Gravação do Ano, Álbum do Ano, Canção do Ano e Melhor Novo Artista), os homens abocanharam 72,5% dos prêmios, contra 27,5% vencidos pelas mulheres em toda a história da premiação. A única categoria em que há um certo equilíbrio é a de Novo Artista, na qual mulheres venceram nove vezes e mesmo assim, em duas delas o prêmio foi dividido com um homem, por se tratar de banda ou duo.

Karol G levou o Grammy Latino de Melhor Artista Novo em 2018


Em “Álbum do Ano”, apenas Shakira (2006) e Rosalia (2019) levaram os gramofones para casa e ajudaram a diminuir a triste estatística. Na categoria “Canção do Ano”, que premia o trabalho dos compositores, não houve um ano sequer em que uma canção composta apenas por uma ou mais mulheres venceu. Em apenas seis ocasiões a canção do ano teve a participação de pelo menos uma mulher em sua composição. Já em “Gravação do Ano”, apenas em 2015, o gramofone foi exclusivamente para uma artista feminina. Shakira venceu nos anos de 2006 e 2016, mas dividiu o prêmio respectivamente com seus colegas Alejandro Sanz e Carlos Vives.

Os números demonstram uma triste realidade que assombra as mulheres da indústria fonográfica latina. O mercado é dominado por homens e a Academia parece refletir essa tendência de machismo nas duas décadas da premiação.

O machismo, aliás, foi alvo de polêmica na versão norte-americana do Grammy. Em 2018, o então presidente da Academia de Gravação, Neil Portnow, disse que as mulheres precisavam “se impor, se aperfeiçoar e buscar orientação”, quando questionado por um jornalista do porquê as artistas femininas tinham poucos Grammys comparados aos homens. A fala resultou em sua saída do posto de CEO e ele acabou sendo substituído por uma mulher.

No segmento latino, há uma série de artistas talentosas que também merecem ter seu talento reconhecido. Em pleno ano de 2020, é inadmissível que o pioneirismo de Shakira tenha produzido apenas Natalia e Rosalia.

O ano de 2006 parecia ser um divisor de águas para as mulheres. Na sétima edição dos prêmios, era a primeira vez que uma artista feminina levava para casa a grande tríade da noite. Shakira levou o Grammy de Álbum do Ano com Fijacion Oral Vol.1 e Canção e Gravação do Ano, por La Tortura. Um recorde que nenhuma outra mulher conseguiu igualar e que apenas Alejandro Sanz, Juanes e Calle 13 dividem com a colombiana. Os anos seguintes não foram promissores para as mulheres e apenas nos últimos dois elas tiveram um grande protagonismo nas categorias principais.

Até 2011, havia categorias separadas por gêneros, que garantiam a representatividade de mulheres na festa da música latina. Ao olhar para os números da Academia, nos parece imperativo que essas categorias voltem à cerimônia, pelo menos até que os membros votantes e júri técnico passem a considerar com mais equidistância as obras de intérpretes e autoras femininas. O que parecia ser uma tentativa bem intencionada de acabar com a distinção entre homens e mulheres nos prêmios, acabou por aprofundar o abismo entre os gêneros na hora do Grammy anunciar os seus vencedores. É preciso uma mudança de paradigmas. Nossas mulheres latinas querem e merecem mais.

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